quinta-feira, 17 de abril de 2014

A SUBVERSÃO DA RESSURREIÇÃO, PARTE 3


MANHÃ

Jo 21.1-13

Um dos episódios pós-ressurreição envolve uma manhã, a pescaria de Pedro, e um café-da-manhã. Após aquele final de semana, as cenas da crucificação, o burburinho da multidão sobre o monte Caveira, e os estalos da guarda romana ainda estavam vivos na memória de Pedro. Contudo, é plausível supor que a brutal lembrança da morte de seu digno mestre concorria com algo que não podia esquecer: quando as autoridades levaram Jesus a interrogatório, ele o negou. Por amor de sua própria segurança, negou instantaneamente seu envolvimento com seu gracioso Mestre. Muito provavelmente, todas estas imagens, inundaram seu coração com um intenso sentimento de remorso, vazio e desconsolo. 

Jamais haverá alguém tão intrinsecamente digno e repleto de autoridade quanto a Jesus, Senhor e Deus de todo o cosmos, e, mesmo assim, havia se dirigido a ele, um ordinário pescador, o convidado  a ser seu discípulo, companheiro de confiança e amigo (...e amigo); transformado sua vida de maneiras que ele sequer imaginou ser possível; deu-lhe identidade, propósito e uma causa pela qual valeria viver e até morrer. Mas por aquela noite de traição, Pedro certamente já não se considerava digno de continuar a fazer o que Jesus lhe confiou, nem de ser quem Jesus lhe havia chamado e transformado para ser. 

Talvez por isso, pela sufocante desonra com sigo mesmo, Pedro chegou à seguinte conclusão: "Vou pescar!". Por que Pedro se importaria em pescar numa hora dessas? Não há registro de Pedro pescando desde de que conheceu a Jesus. Pode bem ser que o fizesse, só não era algo relevante o suficiente para ocupar as anotações bíblicas. Mas nesta noite é diferente. O evangelho registra que Pedro decidiu ir pescar. Estaria Pedro se recorrendo a aquilo que lhe era próprio, o hodierno pescador, sem Cristo e sem muita perspectiva? Seria uma fuga da realidade marcada pela indignidade de ser ele discípulo amado, mas que havia, mesmo que por um instante, abandonado tudo e negado seu mestre? É possível que algo assim passasse pela mente de Pedro, uma pedra polida e feita preciosa por Jesus, que se joga no meio do cascalho bruto.

Para uma madrugada tão escura e densa no apagado coração desse pescador, somente a Estrela da manhã poderia dissipar e renovar seu calor. É este o lugar apropriado para a subversão do Cristo ressurrecto raiar seu brilho intenso. Jesus aparece subitamente na praia e se dirige a Pedro. Mais uma vez, Jesus vai até aquele homem do mar para dizer que ele é seu, que lhe fez e fará mais do que nunca, pescador de vidas; que está ali por ele, novamente, para o encontrar e ser achado. Tudo isso Pedro percebeu ao ver e ouvir Jesus ali. Aquela visão era significativa demais entre os dois, e o inquiria a valorizá-la mais do que as imagens da traição, e as cenas da cruz. Pedro percebe mais uma vez o maravilhoso convite da graça, e desta vez, também a um inesquecível café-da-manhã com o todo poderoso ao nascer do sol. Então Pedro se joga, pra nunca mais retroceder, em direção a Jesus, pois sabia agora, mais do que nunca, que só ele tem palavras de vida eterna.

A SUBVERSÃO DA RESSURREIÇÃO, PARTE 2


TARDE

Lucas 24.13-31

A segunda cena da ressurreição envolve um pôr-do-sol, dois discípulos cabisbaixos e um café da tarde. Estes homens caminhavam desconsoladamente a caminho da aldeia de Emaús. Andavam e conversavam chorosamente sobre o infortúnio da morte de Jesus. Para eles, no calvário foram crucificados também os sonhos e as expectativas mais palpitantes, que outrora arderam o coração, de ver o reino dos Céus na terra surgindo finalmente. Mas agora, tanto reino quanto céus pareciam ter sido soterrados desde a última sexta-feira.

A constrição destes discípulos revela a sinceridade de seus corações ao sentirem por Jesus. Eles verdadeiramente o amavam, e absolutamente natural o lamento por sua ausência. Em seus corações um largo caminho foi aberto para a dor e pranto por Jesus. Contudo, deixaram o sofrimento afogar a lembrança e atordoar a esperança. É sempre um risco no luto. A dor daqueles homens falou significativamente mais alto que suas expectativas, memórias e fé, para crer nas promessas de Jesus. Pois, é em meio ao caminhar arrastado em melancolia destes discípulos, que Jesus, ressurreto de entre os mortos, os alcança e puxa uma boa conversa com eles. Mas atordoados pela perda, dopados pela dor, não o percebem. Não reconheceram Jesus, e não conseguiram tê-lo de volta. 

O sofrimento tem um grande poder para desorientar nossas vidas. A dor, a perda e todos os episódios lamentáveis em nossa história, são uma grande ameaça à nossa esperança. A intensidade da angústia é capaz de abalar nossa memória e aplacar nossa capacidade de manter as expectativas e termos fé. As lágrimas do sofrimento daqueles discípulos rumo a Emaús ofuscam suas vistas e não lhos permitiram reconhecer que Jesus estava caminhando ao lado deles, e que o motivo de seu luto já estava morto.

Mas a subversão estava por vir. Jesus permanece a caminhada e, gradativa e insistentemente, relembra-os de todo o Antigo Testamento a seu próprio respeito junto a abatida memória daqueles discípulos. E ao ser convidado para estar à mesa com eles, Jesus parte o pão, oferece a seus discípulos que, então, naquele instante, o reconhecem surpreendidamente,  vendo que o mestre vive e está à mesa com eles. Jesus troca inteiramente o desconsolável caminhar dos discípulos por uma mesa de renovo e fé. Sem desrespeitar os processos de luto e sofrimento, o Mestre reconstrói suas memórias naquilo que podiam ter sólida esperança, soerguendo a razão de suas expectativas.

A surpresa daquela tarde de caminhada nos cabe muito bem. Pois o sofrimento continua a desnortear-nos, e nós, por vezes, deixamo-nos embriagar pela dor, e perdemos a razão e expectativa das novidades do Reino do Filho de Seu Amor. Jesus pode subverter nossa caminhada, substituindo nossas lágrimas por uma mesa posta de alegria e novidade. Não valorize a dor mais do que a presença daquele que cura.

A SUBVERSÃO DA RESSURREIÇÃO, PARTE 1

MADRUGADA

Os evangelhos narram os dias após a morte de Jesus, registrando eventos absolutamente subversivos às expectativas dos discípulos. Determinadas cenas no relato de Lucas nos mostram como os céus surpreendem a experiência de algumas pessoas nos dias seguintes à ressurreição. Jesus subverte, surpreende, confronta, esvazia e preenche ao aparecer ressurreto. Mais do que pelo aterrador fato de estar vivo, de pé e respirando após sua morte, pelo que fala e faz. As circunstâncias, os locais, os momentos e as pessoas – principalmente as pessoas –, tudo altamente significante. Em momentos distintos do dia, Jesus aparece em lugares específicos. Isto porque seus discípulos são também distintamente específicos, e assim é que lidam com sua vida e morte.

A primeira cena envolve uma madrugada e, pelo menos, duas mulheres. Uma delas, Maria Madalena. Elas levam consigo especiarias perfumadas de essências de flores, óleos e aloés, ao sepulcro para cuidarem do corpo de Jesus. Esta atitude demonstra veneração tal que não seria de todo exagero entender o que fazem como litúrgico, cúltico e adoração. Elas compreendem o que estão fazendo, sabem exatamente o que fazer com Jesus naquele sepulcro. Não demonstram dificuldade para lidar com a morte de Jesus. Em reverente aproximação, providenciam aromas e tecidos para honrarem Jesus com devoção sincera.

Todavia, ao chegarem ao sepulcro, são surpreendidas: a porta rochosa do túmulo foi removida e o sepulcro está vazio; são confrontadas: anjos lhes aparecem e questionam: “mulheres, por que buscais entre os mortos aquele vive?”; suas expectativa foi subvertida: Jesus está vivo! De modo que já não há sentido algum no que foram fazer ali. Seus preparativos “litúrgicos” não possuem mais objeto. Suas mãos são esvaziadas de seus símbolos religiosos que se dirigiam a Jesus, o morto, para serem preenchidas com a mais sublime responsabilidade: anunciar, em primeira mão, que o Mestre está vivo.

Assim é a ressurreição naquela madrugada, subversiva. Não deve ser diferente a nós. Em nossa sinceridade devocional, podemos alçar empenho religioso e aproximarmos de Jesus com respeito e adoração. Isto não parece difícil. É fácil lidar com Jesus como se fosse um memorial, um ícone, ‘‘um túmulo’’. É simples adorá-lo e considerá-lo quando ele se encaixa nos meus moldes de abordagem, na minha agenda litúrgica. Quando eu sou quem determino a hora e o lugar de me aproximar de Jesus, provavelmente, é porque estou lidando com um Jesus morto. A ressurreição esvazia nossas mãos religiosas, e nos confronta ao nos apresentar um Deus realmente vivo para relacionamento. Um túmulo vazio, pois Cristo está de pé, caminhando e respirando. De sua própria boca podemos ouvir uma nova missão.


Dê uma boa olhada nos pássaros e desista da ansiedade



“…Não andeis ansiosos com sua própria vida, quanto ao que comer ou beber; nem com seu próprio corpo, quanto ao que vestir. Não é a vida mais importante que a comida, e o corpo mais importante que a roupa? Observai as aves do céu: não semeiam nem colhem nem armazenam em celeiros; contudo, o Pai celestial as alimenta. Não tem vocês muito maior valor do que elas?…” (Mt 6. 25,26) 

Stress, distração, ira, depressão, pânico, insegurança. Além de serem antônimos de saúde, capazes de nos destruir de dentro para fora, o que estes distúrbios tem em comum é a origem: a ansiedade. Por isso, nem sempre é fácil identificar este mal dentro de nós. Pois, além de termos dificuldades em avaliarmos a nós mesmos e lidar com nossas imperfeições, muito mais complexo parece ser olhar através dos frutos da ansiedade que colhemos no coração. 

Em sua essência, ansiedade é uma reação inadequada às situações que nos cercam e surpreendem — o que é muito diferente das nossas preocupações e inquietudes que nos levam ao planejamento e à ponderação para agir. Contudo, permitimos, mais recorrentemente do que gostaríamos, que nossa agitação diária se converta em ansiedade e, consequentemente, em pecado, quando fixamos nos olhos no que está por vir, ao invés de observamos as oportunidades de fazermos o melhor possível em nossa situação presente.

Quando o próprio Jesus disse, e o fez três vezes: "Não andeis ansiosos... não vos inquieteis" (Mt 6.25, 31, 34), reiterado mais tarde pelo apóstolo Paulo: "Não andeis ansiosos de coisa alguma" (Fp 4.6), ele estava denunciando um caminho mau e uma péssima forma de andar. Revelando, assim, a face pecaminosa da ansiedade. Em qualquer tempo e em qualquer forma, pecado e, logo, uma forma errada de viver. 

Jesus vai direto ao assunto da ansiedade nesta passagem, e reprova nossa caminhada ansiosa, e aponta a alternativa do seu reino: “observai as aves do céu…”. Neste exercício Jesus convida a ansiedade à morte na reflexão e consciência do discípulo, que deve observar e perceber o Pai de amor por trás, por cima e em meio às circunstâncias da vida. Dar uma boa olhada à nossa volta, e em nossa história, e observar como o Senhor Deus cuida paternalmente. 

Como John MacArthur disse, “a ansiedade é uma rude desconfiança do poder e amor de Deus e, apesar de sua falta de sutileza, incorremos nela com facilidade e frequência”. Mas, sabendo disto, Jesus vem em nosso socorro, e chama nossa atenção ao fato de somos caríssimos em importância para o Pai celestial. Sua repetida e imperativa exortação "não vos inquieteis”, é uma ordem e graciosa alternativa maneira de viver, com relação à ansiedade: pare e desista, baseando-se no cuidado supremo de um Deus amoroso e onipotente.

Ele prometeu atender a todas as nossas necessidades e o fará: "Meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades" (Fp 4.19)